
Quando uma mulher começa a praticar musculação, os primeiros objetivos muitas vezes estão ligados à aparência: ganhar massa muscular, diminuir gordura ou modificar determinadas regiões do corpo. Mas uma pesquisa brasileira sugere que acompanhar apenas essas transformações pode deixar de fora uma parte importante da experiência.
Publicado no South Florida Journal of Environmental and Animal Science, o estudo “A influência do ganho de força muscular na autoestima de mulheres praticantes de musculação” analisou justamente a relação entre treinamento resistido, força muscular, autoestima e percepção corporal.
A conclusão dos autores chama atenção: o aumento da força muscular obtido com o treinamento apresentou influência positiva na autoestima e na percepção corporal das mulheres avaliadas. É um resultado interessante porque desloca parte da conversa sobre academia do “como meu corpo parece” para “o que meu corpo consegue fazer”.

O que os pesquisadores descobriram sobre musculação e autoestima?
O trabalho foi conduzido por Julia Machado Xavier, Lucca Fazan, Dilmar Pinto Guedes Júnior, Marcelo Vasques Casati, Krom Marsili Guedes e Rodrigo Pereira da Silva e publicado em maio de 2026.
Segundo os pesquisadores, a prática regular de exercícios como a musculação tem sido relacionada a benefícios físicos e psicológicos, envolvendo aspectos como composição corporal, humor, autoimagem e bem-estar. O estudo se concentrou especialmente na possibilidade de que ganhar força também interfira na maneira como a mulher percebe a si mesma.
Na conclusão, os autores afirmam que o ganho de força obtido por meio do treinamento resistido apresentou influência positiva sobre a autoestima e a percepção corporal das participantes, reforçando o exercício como possível ferramenta de promoção de saúde e bem-estar.
Por que ficar mais forte pode mudar a maneira como uma mulher se enxerga?
Existe uma diferença psicológica interessante entre observar uma transformação estética e experimentar uma nova capacidade.
Conseguir aumentar a carga, completar um exercício que antes parecia difícil ou perceber maior facilidade para realizar tarefas do cotidiano oferece uma referência concreta de progresso. O corpo deixa de ser avaliado exclusivamente por peso, medidas e aparência e passa também a ser percebido por aquilo que é capaz de realizar.
É justamente esse deslocamento que torna o resultado do estudo relevante. Embora mudanças corporais continuem fazendo parte das motivações para treinar, a experiência de tornar-se fisicamente mais forte pode acrescentar outra dimensão à relação com o próprio corpo.

A autoestima melhora somente porque o corpo muda?
Não necessariamente, e essa distinção é importante.
Os próprios pesquisadores contextualizam a musculação por diferentes possíveis benefícios, incluindo mudanças físicas e psicológicas. Portanto, seria simplista concluir que uma eventual melhora na autoestima acontece apenas porque determinada participante perdeu gordura ou ganhou massa muscular.
Um estudo anterior com mulheres e mães praticantes de musculação oferece uma pista interessante. Na pesquisa, realizada com 20 participantes, saúde apareceu como a principal motivação para a prática, à frente de aparência, prazer, competência e fatores sociais. As participantes também apresentaram resultados positivos nas avaliações específicas de autoestima e autoimagem.
Isso ajuda a ampliar a interpretação: academia pode ser um lugar para modificar o corpo, mas também pode representar a experiência de desenvolver competência, disciplina e capacidade física.
O espelho pode deixar de ser a única medida de progresso?
Essa talvez seja uma das consequências mais interessantes da discussão levantada pela pesquisa.
Quando o objetivo está exclusivamente na aparência, o progresso pode parecer inexistente durante semanas. O peso oscila, mudanças visuais levam tempo e a comparação com imagens idealizadas pode criar expectativas pouco realistas.
A força oferece outros marcadores.
Algumas conquistas que não dependem do espelho incluem:
- Executar um movimento que antes parecia difícil.
- Aumentar gradualmente a carga com técnica adequada.
- Perceber maior disposição para atividades cotidianas.
- Desenvolver coordenação e domínio de novos exercícios.
- Manter uma rotina de treinamento com consistência.
- Reconhecer que o corpo está adquirindo novas capacidades.
Esses indicadores não substituem objetivos estéticos para quem os possui. Eles simplesmente ampliam a definição de “resultado”.
Musculação pode ajudar mulheres a desenvolverem uma percepção diferente do próprio corpo?

O estudo de 2026 aponta nessa direção ao relacionar o aumento de força a efeitos positivos tanto na autoestima quanto na percepção corporal das mulheres participantes.
Esse aspecto é relevante porque a relação entre mulheres, exercício e imagem corporal é complexa. Treinar pode proporcionar satisfação e sensação de competência, mas a academia também está inserida em uma cultura que frequentemente estabelece padrões estéticos difíceis de alcançar.
Por isso, musculação não deve ser apresentada como uma espécie de “tratamento automático” para baixa autoestima. Os resultados pertencem ao grupo estudado e não permitem afirmar que toda mulher que começar a levantar pesos necessariamente desenvolverá autoestima elevada.
A maneira como o exercício é vivenciado também importa. Treinar para desenvolver força, saúde e habilidades pode representar uma experiência muito diferente de passar todos os dias tentando corrigir características do próprio corpo consideradas inadequadas.
Como transformar a força em uma medida saudável de evolução?
Uma maneira prática é estabelecer metas que possam ser observadas independentemente da balança.
Isso pode envolver aprender corretamente um agachamento, desenvolver resistência, aumentar cargas progressivamente ou simplesmente conseguir manter determinada frequência de exercícios. O objetivo precisa ser compatível com experiência, saúde e condição física de cada pessoa.
Antes de avaliar o próprio progresso apenas pela aparência, vale observar:
- Estou ficando mais forte?
- Minha execução dos exercícios melhorou?
- Consigo realizar movimentos que antes não conseguia?
- Tenho mais disposição no cotidiano?
- Estou aprendendo a respeitar os limites do meu corpo?
- Minha relação com o exercício está ficando mais saudável?
A evolução física deixa, assim, de ser apenas uma fotografia de “antes e depois” e passa a incluir aquilo que aconteceu entre essas duas imagens.

Mais musculação significa automaticamente mais autoestima?
Não. Essa conclusão iria além do que o estudo permite afirmar.
Autoestima é um fenômeno complexo, influenciado por experiências pessoais, relacionamentos, saúde mental, contexto social, percepção corporal e muitos outros fatores. Além disso, estudos específicos com praticantes de musculação não demonstram que levantar pesos seja uma solução universal para dificuldades emocionais.
Também é importante não confundir associação ou influência observada em uma pesquisa com garantia individual de causa e efeito. O artigo oferece evidências favoráveis dentro de seu desenho e de sua amostra, mas novos trabalhos e populações maiores são importantes para compreender melhor essa relação.
A musculação pode fazer parte de uma rotina de bem-estar; não substitui acompanhamento psicológico ou médico quando há sofrimento emocional significativo.
Afinal, o que esse estudo ensina sobre mulheres, força e autoestima?
Talvez a principal contribuição esteja em ampliar aquilo que significa perceber uma mudança no próprio corpo.
O estudo concluiu que o aumento da força muscular decorrente do treinamento resistido apresentou influência positiva sobre a autoestima e a percepção corporal das mulheres estudadas.
O resultado não significa que estética deixou de importar, nem que musculação produzirá o mesmo efeito psicológico em todas as mulheres. Mas acrescenta uma perspectiva importante a uma cultura fitness frequentemente dominada por medidas, fotografias e números na balança.
Às vezes, uma das mudanças mais significativas pode não aparecer imediatamente no espelho.
Ela aparece quando uma carga que parecia impossível se torna possível, quando o corpo responde de maneira diferente e quando a mulher percebe, na prática, que está mais forte do que costumava acreditar.
Leia o estudo científico completo
Adicione a Kátia Ribeiro às suas fontes preferidas para encontrar nossos novos conteúdos com mais facilidade.

