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Relacionamentos duradouros não acontecem por acaso: psicólogo revela hábitos que ajudam a fortalecer o amor

Casal maduro sentado no sofá brincando e sorrindo um para o outro em momento de descontração.
© Studio Katia Ribeiro

Escutar com atenção, reconhecer o que o outro faz de bom, diminuir as distrações e preservar pequenos rituais de conexão podem fazer diferença na vida a dois. As reflexões do psicólogo Marcos Lacerda encontram pontos de contato com pesquisas científicas sobre intimidade, gratidão e satisfação nos relacionamentos.

Carinho, diálogo, respeito e companheirismo estão entre os aspectos que podem contribuir para fortalecer a relação ao longo dos anos. © Studio Katia Ribeiro

Existe uma ideia bastante sedutora de que um relacionamento, quando é verdadeiro, deveria funcionar quase sozinho. Duas pessoas se encontram, apaixonam-se e, a partir daí, o sentimento seria suficiente para sustentar a vida compartilhada.

A convivência real é mais complexa. Trabalho, filhos, preocupações financeiras, cansaço e celulares competem diariamente pela atenção do casal. Nesse cenário, o psicólogo Marcos Lacerda propõe uma metáfora interessante: sem manutenção, uma relação pode adquirir a fragilidade de um “castelo de areia”. Para torná-la mais sólida, seriam necessários pequenos comportamentos cotidianos funcionando como “cimento e ferro”.

A ciência dos relacionamentos não oferece uma fórmula capaz de garantir que um casal permaneça junto. Mas pesquisas sobre responsividade, gratidão, comunicação e interferência dos smartphones ajudam a compreender por que alguns dos comportamentos destacados pelo psicólogo podem favorecer a conexão.

Por que os pequenos hábitos podem fazer tanta diferença no relacionamento?

Relacionamentos não são vividos apenas em aniversários, viagens ou jantares especiais. Grande parte da intimidade é construída justamente nos momentos que parecem insignificantes: contar algo que aconteceu no trabalho, pedir uma opinião, fazer uma brincadeira ou procurar um abraço.

O psicólogo John Gottman popularizou o conceito de bids for connection, ou tentativas de conexão. São pequenas iniciativas pelas quais uma pessoa procura atenção, afeto ou interesse do parceiro. Responder positivamente a essas tentativas — o que Gottman chama de turning toward — ocupa papel central em seu modelo de relacionamento saudável.

Isso ajuda a explicar por que a qualidade de um relacionamento pode ser construída em acontecimentos aparentemente banais. Um comentário ignorado parece pequeno isoladamente; centenas de oportunidades de conexão acolhidas ou rejeitadas podem produzir uma dinâmica muito diferente ao longo do tempo.

Escutar com calma pode mudar a maneira como o casal se comunica?

Para Marcos Lacerda, desacelerar a fala funciona como um exercício de presença. A ideia não deve ser interpretada como uma regra científica segundo a qual “falar devagar salva relacionamentos”, porque não existe evidência que sustente uma conclusão tão específica.

O princípio por trás da recomendação, entretanto, é relevante: reduzir a pressa para ouvir e compreender o parceiro. Em uma discussão, existe uma diferença entre escutar para entender e simplesmente aguardar uma oportunidade de responder.

No modelo clínico desenvolvido pelo Gottman Institute, comunicação saudável envolve demonstrar interesse, construir compreensão e responder às tentativas de conexão do parceiro, em vez de ignorá-las ou afastá-las.

Na prática, algumas atitudes podem favorecer conversas mais cuidadosas:

  • Evitar interromper antes que o parceiro termine de explicar.
  • Fazer perguntas para compreender, em vez de presumir intenções.
  • Demonstrar interesse pelo que está sendo contado.
  • Deixar discussões importantes para momentos com menos distrações.
  • Falar sobre comportamentos específicos sem transformar a conversa em ataque pessoal.
Segundo John Gottman, relacionamentos se fortalecem nos pequenos momentos em que escolhemos dar atenção ao outro. A falta constante dessa presença não é um detalhe: aos poucos, cria distância justamente onde deveria existir conexão. © Studio Katia Ribeiro

Por que reconhecer os acertos pode ser tão importante quanto apontar os erros?

Depois de algum tempo de convivência, aquilo que funciona bem pode tornar-se quase invisível. O jantar preparado, uma tarefa resolvida ou a preocupação demonstrada em um dia difícil passam a ser considerados parte natural da rotina. Um erro, por outro lado, costuma chamar atenção imediatamente.

É nesse ponto que a proposta de Lacerda sobre valorizar comportamentos positivos encontra respaldo interessante na literatura sobre relacionamentos. Pesquisas com casais mostram associação entre percepção de gratidão do parceiro e maior satisfação no relacionamento. Em dois estudos com 205 e 309 casais, pesquisadores observaram que percepções mais baixas da gratidão do parceiro estavam relacionadas a menor satisfação de quem avaliava a relação.

O modelo de Gottman também inclui a expressão de carinho e admiração entre os componentes importantes da amizade e da intimidade do casal. A recomendação é verbalizar características e comportamentos que se aprecia no parceiro, inclusive os pequenos.

Isso não significa distribuir elogios artificiais. Um agradecimento específico — “obrigado por ter resolvido isso hoje” — pode comunicar algo muito mais importante: eu percebi o que você fez.

Como pequenas mensagens ajudam a manter a conexão durante o dia?

Marcos Lacerda utiliza a imagem de pequenas “gotas de tinta” para falar da presença na rotina do parceiro. Uma mensagem antes de uma reunião importante, uma fotografia engraçada ou a pergunta sobre algo que preocupava a pessoa podem funcionar como pequenos lembretes de vínculo.

Aqui é importante fazer uma distinção: não existe uma quantidade cientificamente ideal de mensagens que um casal deva trocar. Para algumas pessoas, conversar durante todo o dia é agradável; para outras, pode ser cansativo ou invasivo.

O princípio mais consistente é a responsividade: perceber uma tentativa de conexão e responder a ela de maneira que faça o outro se sentir ouvido e considerado. No modelo de Gottman, voltar-se para essas pequenas iniciativas cotidianas é justamente uma das maneiras de alimentar a conexão emocional.

Alguns gestos simples podem cumprir essa função:

  • Desejar boa sorte antes de algo importante.
  • Perguntar posteriormente como determinada situação terminou.
  • Compartilhar algo que fez lembrar do parceiro.
  • Demonstrar carinho sem depender de uma data especial.
  • Reservar um período do dia para conversar com atenção.

O celular pode realmente se tornar um terceiro elemento na relação?

© Studio Katia Ribeiro

Lacerda utiliza uma provocação ao chamar o celular de “amante”. Evidentemente, trata-se de uma metáfora, mas o comportamento descrito por ele possui até um nome na literatura científica: partner phubbing.

O termo descreve situações em que uma pessoa ignora ou deixa de prestar atenção ao parceiro para se concentrar no smartphone. Uma meta-análise publicada em 2025 reuniu 52 estudos, 58 amostras e 19.698 participantes e encontrou associação entre partner phubbing e menor satisfação no relacionamento e no casamento, menor intimidade e responsividade, além de maior conflito e ciúme.

Os próprios pesquisadores ressaltam uma limitação importante: grande parte dos trabalhos disponíveis é correlacional. Portanto, não é correto concluir que olhar para o celular seja, sozinho, a causa de um relacionamento ruim. Ainda assim, o conjunto das evidências indica uma relação consistente entre ignorar o parceiro em favor do aparelho e piores indicadores relacionais.

Um estudo de 2026 com adultos portugueses também encontrou associação negativa entre partner phubbing e medidas de ajuste e satisfação no relacionamento.

Por que criar rituais de intimidade pode aproximar o casal?

Beijar-se antes de sair, conversar alguns minutos ao final do dia ou ter um programa que pertence ao casal pode parecer trivial. Com a repetição, entretanto, esses comportamentos podem adquirir significado emocional.

Lacerda sugere atitudes como ir dormir juntos e manter os beijos de bom dia e boa noite. Essas recomendações específicas devem ser entendidas como sugestões do psicólogo, não como prescrições científicas universais. Casais possuem horários, trabalhos, filhos, necessidades de sono e formas de demonstrar carinho completamente diferentes.

O elemento mais interessante está por trás do comportamento: criar momentos previsíveis nos quais a relação recebe atenção. No modelo de Gottman, construir significado compartilhado e manter formas cotidianas de conexão fazem parte da arquitetura de um relacionamento saudável.

© Studio Katia Ribeiro

Amar significa fazer tudo junto?

Não. Proximidade e individualidade não precisam ocupar lados opostos de uma relação. É possível construir intimidade e, simultaneamente, reconhecer que o parceiro continua sendo uma pessoa com preferências, necessidades e limites próprios.

Antes de transformar proximidade em obrigação, pode ser útil observar:

  • Cada pessoa consegue manter interesses próprios?
  • Existe espaço para momentos individuais?
  • As amizades de ambos são respeitadas?
  • Diferenças de opinião são toleradas?
  • É possível pedir espaço sem que isso seja interpretado automaticamente como rejeição?

Autonomia não significa indiferença. Da mesma maneira, intimidade não precisa significar fusão.

@gabrielaferrazpsi

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Quais hábitos têm maior respaldo para fortalecer uma relação?

Nenhum comportamento isolado garante a duração de um relacionamento. Além disso, permanecer junto nem sempre é o melhor desfecho: existem relações incompatíveis, destrutivas ou abusivas nas quais a separação pode ser necessária.

Quando existe uma relação saudável que ambos desejam cultivar, porém, alguns princípios presentes na literatura científica coincidem com parte das reflexões apresentadas por Lacerda.

Entre eles estão:

  • Responder às pequenas tentativas de conexão do parceiro.
  • Demonstrar carinho e admiração de maneira genuína.
  • Reconhecer e expressar gratidão pelo que o outro faz.
  • Reservar momentos de atenção sem interferência constante do celular.
  • Demonstrar interesse pela rotina e pelas experiências do parceiro.
  • Criar formas próprias de manter proximidade e significado compartilhado.
  • Preservar espaço para necessidades e diferenças individuais.
© Studio Katia Ribeiro

Afinal, qual é o segredo de um relacionamento que permanece vivo?

A ciência dificilmente responderia a essa pergunta com uma única regra. Relacionamentos são influenciados por personalidade, contexto, saúde, trabalho, expectativas, condições financeiras, história familiar e inúmeros outros fatores.

O que as pesquisas permitem dizer com mais segurança é que atenção, responsividade, apreciação e qualidade das interações importam. A meta-análise sobre phubbing mostra o outro lado dessa dinâmica: quando a atenção é repetidamente desviada do parceiro, menores níveis de intimidade, responsividade e satisfação aparecem associados a esse comportamento.

É nesse ponto que a metáfora de Marcos Lacerda sobre o “castelo de areia” ganha força editorial. O amor pode até começar como sentimento, mas a convivência também é composta por comportamentos.

Escutar quando seria mais fácil interromper, agradecer aquilo que virou rotina, largar o telefone quando o outro procura contato e preservar pequenos momentos de intimidade não garantem um final feliz. Mas ajudam a lembrar que amar alguém e participar ativamente da relação com essa pessoa são coisas diferentes — e um vínculo precisa das duas.

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