Pular para o conteúdo

Como construir uma autoestima saudável que se fortaleça além da aparência física

Mulher sentada na cama com uma xícara nas mãos, contemplando a luz do sol pela janela em um momento de tranquilidade.
A psicóloga Alana Anijar propõe olhar para a autoestima como algo muito maior do que gostar do próprio reflexo. Competência, autonomia, autocompaixão e reconhecimento da própria evolução ajudam a construir uma percepção de valor que não depende exclusivamente da aparência ou da aprovação dos outros. © Studio Katia Ribeiro

Quando se fala em autoestima, é comum pensar imediatamente no espelho. Gostar do corpo, sentir-se bonita em uma fotografia ou receber elogios podem, de fato, influenciar a maneira como alguém se percebe. O problema começa quando praticamente todo o valor pessoal fica concentrado nessa dimensão.

Para a psicóloga Alana Anijar, uma autoestima mais consistente precisa encontrar sustentação também naquilo que uma pessoa aprende, realiza, supera, escolhe e acredita ser capaz de fazer. A aparência continua podendo ser importante, mas deixa de carregar sozinha a responsabilidade de determinar quanto alguém vale.

Essa distinção encontra respaldo amplo na psicologia. Pesquisadores estudam há décadas o conceito de contingent self-worth: quando o valor que atribuímos a nós mesmos depende fortemente de obter sucesso em determinados domínios, a autoestima pode oscilar conforme recebemos aprovação ou experimentamos rejeição.

© Studio Katia Ribeiro

Por que construir a autoestima apenas sobre a aparência pode torná-la frágil?

Gostar da própria aparência não é um problema. Cuidar do cabelo, escolher roupas que fazem bem ou sentir prazer ao se olhar no espelho podem fazer parte de uma relação saudável consigo mesma.

A vulnerabilidade aparece quando surge uma equação silenciosa: “se estou bonita, tenho valor; se não estou, valho menos”.

A aparência é particularmente instável como único alicerce porque está sujeita ao envelhecimento, às mudanças corporais, às tendências estéticas e, principalmente, à comparação. Nas redes sociais, essa comparação ainda acontece diante de imagens selecionadas, produzidas, iluminadas, editadas ou filtradas.

Pesquisas sobre autoestima contingente à aparência encontraram associação entre depositar o próprio valor na aparência, maior ansiedade relacionada ao visual e menor autoestima. Isso não significa que cuidar da aparência prejudique a saúde psicológica; o ponto crítico é transformá-la na principal condição para sentir-se valiosa.

O que seria, então, uma autoestima verdadeiramente saudável?

Uma autoestima mais sólida não significa acordar todos os dias sentindo-se extraordinária. Também não exige eliminar inseguranças.

Ela pode ser compreendida como uma percepção de valor que consegue sobreviver aos dias em que você não recebe elogios, não apresenta seu melhor desempenho ou simplesmente não gosta tanto da imagem que encontra no espelho.

Nesse sentido, a reflexão de Alana desloca uma pergunta importante. Em vez de apenas “eu gosto da minha aparência?”, vale perguntar:

  • Confio na minha capacidade de aprender?
  • Reconheço qualidades que não dependem do meu corpo?
  • Consigo tomar decisões sem precisar sempre de aprovação?
  • Percebo as coisas difíceis que já consegui enfrentar?
  • Um erro muda meu comportamento ou define quem eu sou?

Quanto mais respostas sobre seu valor existem fora do espelho, mais lugares existem para a autoestima se apoiar.

© Studio Katia Ribeiro

A autoestima começa a ser construída ainda na infância

A infância é um período importante para o desenvolvimento do autoconceito, da autonomia e da percepção de competência. Na reflexão de Alana Anijar, existe um comportamento cotidiano particularmente interessante: permitir que a criança tente.

Quando adultos realizam imediatamente todas as tarefas por ela, a intenção pode ser ajudar. Mas também desaparecem pequenas oportunidades de descobrir: “eu consigo”.

Amarrar um cadarço, organizar materiais, tentar resolver um problema adequado à idade ou participar de tarefas domésticas são experiências aparentemente simples. O objetivo não é exigir independência precoce, mas permitir tentativas compatíveis com o desenvolvimento, oferecendo apoio quando necessário.

O erro também ganha outra função. Em vez de servir como evidência de incapacidade, passa a fazer parte da aprendizagem: tentei, não consegui ainda, posso descobrir outra maneira.

Por que sentir-se capaz pode transformar a percepção que temos de nós mesmos?

Imagine duas fontes de autoestima. Na primeira, alguém precisa continuamente ouvir: “você é incrível”. Na segunda, essa pessoa acumula experiências concretas que lhe permitem pensar: “isso foi difícil, mas eu consegui aprender”.

A segunda oferece evidências pessoais de competência.

É por isso que Alana chama atenção para a importância de sentir-se útil e desenvolver habilidades. Aprender a cozinhar uma receita, organizar as próprias finanças, dirigir, dominar uma ferramenta profissional, praticar um esporte ou resolver um problema doméstico pode parecer distante da autoestima — mas cada experiência amplia a história que contamos sobre nossa própria capacidade.

Isso não significa transformar produtividade em uma nova condição de valor. A ideia não é substituir “preciso ser bonita” por “preciso ser extremamente competente”. O objetivo é justamente diversificar as bases da identidade.

Como uma autoestima fragilizada pode aparecer na vida adulta?

Nem sempre ela aparece como alguém dizendo abertamente “não gosto de mim”. Muitas vezes, manifesta-se em decisões cotidianas.

Pode surgir em uma profissional que evita uma oportunidade porque acredita que certamente fracassará; na pessoa que precisa continuamente da confirmação do parceiro para sentir-se amada; ou em quem interpreta qualquer crítica como prova definitiva de incompetência.

Também pode existir uma busca constante por sinais externos de valor: elogios, curtidas, aprovação profissional, atenção romântica ou comparação com outras pessoas.

Alguns comportamentos merecem reflexão:

  • Evitar desafios por medo de descobrir que não é capaz.
  • Precisar frequentemente que outras pessoas confirmem seu valor.
  • Transformar pequenos erros em julgamentos sobre a própria identidade.
  • Comparar aparência, carreira ou relacionamentos de maneira constante.
  • Sentir que uma crítica invalida todas as próprias qualidades.
  • Permanecer em situações ruins por acreditar que não merece algo diferente.

Esses comportamentos isolados não diagnosticam baixa autoestima. Eles funcionam melhor como perguntas para observar a relação que alguém mantém consigo mesmo.

Autocuidado é fazer procedimentos estéticos e comprar coisas para si?

Pode ser, mas não necessariamente.

O autocuidado comercializado nas redes sociais costuma aparecer associado a cosméticos, tratamentos, viagens ou momentos de consumo. Alana propõe uma interpretação mais ampla: reservar tempo para si como uma demonstração de que suas próprias necessidades também merecem atenção.

Em determinado dia, autocuidado pode significar cuidar da pele. Em outro, dormir cedo. Também pode significar marcar uma consulta que vem sendo adiada, estabelecer um limite, preparar uma refeição adequada, fazer exercício por saúde ou simplesmente permitir algumas horas de descanso.

A pergunta muda de “o que posso fazer para parecer melhor?” para “do que eu realmente preciso hoje?”

Falar consigo mesma como falaria com uma amiga realmente ajuda?

Essa é uma das estratégias apresentadas por Alana que encontra respaldo particularmente interessante na psicologia: desenvolver autocompaixão.

A pesquisadora Kristin Neff define autocompaixão como uma postura de apoio em relação a si mesmo diante de sofrimento, dificuldades, erros ou inadequações pessoais. Uma ampla revisão publicada no Annual Review of Psychology descreve evidências acumuladas sobre suas relações com saúde psicológica e intervenções destinadas a desenvolvê-la.

Isso não significa ignorar erros ou repetir frases positivas nas quais você não acredita. Autocompaixão pode significar substituir:

“Como eu pude ser tão idiota?”

por:

“Eu tomei uma decisão ruim. O que preciso aprender com isso?”

A responsabilidade continua presente. O que desaparece é a necessidade de humilhar a si mesma para conseguir mudar.

Como fortalecer a autoestima sem depender do espelho?

Uma estratégia útil é criar novas fontes de evidência sobre quem você é. Em vez de esperar sentir confiança para começar algo, pequenas ações podem permitir que a confiança seja construída a partir da experiência.

A proposta não precisa envolver grandes transformações. Pode começar com atividades pequenas e repetíveis.

Algumas práticas podem ajudar:

  • Aprenda algo novo: escolha uma habilidade possível de desenvolver e acompanhe seu progresso.
  • Faça algumas coisas por conta própria: experiências de autonomia ajudam a perceber recursos que talvez você subestime.
  • Registre pequenas conquistas: anote situações que resolveu, dificuldades que enfrentou e habilidades que adquiriu.
  • Observe o diálogo interno: perceba se você usa consigo palavras que jamais usaria com alguém de quem gosta.
  • Diversifique sua identidade: reconheça qualidades relacionadas a caráter, criatividade, conhecimento, humor, coragem, vínculos e valores.
  • Reduza comparações automáticas: especialmente quando perceber que determinado conteúdo nas redes sociais sempre termina fazendo você se sentir inferior.
  • Pratique autocuidado funcional: cuide de sono, saúde, descanso, limites e necessidades emocionais, e não apenas da aparência.

Por que registrar a própria evolução pode ser uma ferramenta interessante?

A memória não funciona como uma gravação perfeita de tudo o que já fizemos. Em períodos de insegurança, pode ser particularmente fácil lembrar dos fracassos e esquecer progressos que aconteceram lentamente.

Por isso, Alana sugere manter algum tipo de registro da própria evolução.

Não precisa ser um diário elaborado. Uma anotação semanal pode registrar três perguntas: o que aprendi, o que enfrentei e o que fiz melhor do que faria alguns meses atrás?

Com o tempo, essas anotações formam um arquivo de evidências. A autoestima deixa de depender apenas de uma sensação momentânea e passa também a reconhecer uma história: dificuldades que antes pareciam enormes, habilidades que foram adquiridas e situações que hoje são enfrentadas de maneira diferente.

Afinal, como construir uma autoestima que sobreviva aos dias em que você não se sente bonita?

Talvez o primeiro passo seja abandonar a expectativa de nunca mais se sentir insegura.

Uma autoestima saudável não elimina dias ruins, comparações ou desconfortos com a própria aparência. Ela apenas impede que essas experiências recebam autoridade absoluta para definir quem você é e quanto vale.

A reflexão proposta por Alana Anijar é especialmente relevante porque não pede que a aparência deixe de importar. Ela pede que outras dimensões também sejam autorizadas a importar.

Ser capaz de aprender. Cumprir uma promessa feita a si mesma. Resolver um problema. Ser uma boa amiga. Reconhecer um erro. Estabelecer um limite. Desenvolver uma habilidade. Recomeçar depois de falhar.

Quando essas experiências passam a fazer parte da definição de quem você é, o espelho continua existindo — mas deixa de ser o único lugar onde você procura respostas.

E talvez uma autoestima mais saudável seja justamente isso: não precisar sentir-se bonita, perfeita ou aprovada todos os dias para continuar reconhecendo que existe valor na pessoa que você está construindo.

Acompanhe a Kátia Ribeiro no Google

Adicione a Kátia Ribeiro às suas fontes preferidas para encontrar nossos novos conteúdos com mais facilidade.

✨ Veja mais conteúdos como este
G Seguir no Google
Continue rolando para carregar a próxima postagem...