Quem cresceu nos anos 60 e 70 aprendeu a ser forte de um jeito diferente — eu, inclusive, nasci em 1968 e só hoje começo a entender o que isso fez com as nossas emoções

Katia Ribeiro
Katia Ribeiro
Katia Ribeiro é criadora de um dos maiores hubs de conteúdo de crochê do Brasil. Há mais de 15 anos, compartilha conhecimento, tendências e projetos criativos que inspiram artesãos em todo o país.
As lembranças de uma infância com mais liberdade ajudam a entender como uma geração inteira aprendeu a enfrentar desafios e seguir em frente. Foto Estudio Katia Ribeiro

Nasci em 1968 e faço parte de uma geração que cresceu de um jeito muito diferente das crianças de hoje. Tivemos mais liberdade, aprendemos cedo a resolver problemas e, muitas vezes, ouvimos que era preciso seguir em frente sem reclamar. Crescemos acreditando que ser forte era suportar, levantar e continuar. E foi assim que muitas de nós atravessamos a vida adulta, cuidamos da família, trabalhamos e enfrentamos mudanças sem sequer perceber o tamanho da força que carregávamos.

Hoje, olhando para trás e conhecendo um pouco mais sobre comportamento e saúde emocional, percebo que nossa força não veio simplesmente de uma “criação melhor”. Ela também nasceu das experiências, das responsabilidades e da necessidade de encontrar soluções sozinhas. Mas existe uma reflexão importante: muitas de nós aprendemos a enfrentar a vida antes mesmo de aprender a compreender o que sentíamos. E talvez seja justamente agora, na maturidade, que estejamos começando a olhar para dentro com mais atenção.

Crescemos com liberdade e aprendemos cedo a resolver nossos próprios problemas

Quem nasceu no final dos anos 60 provavelmente se reconhece em muitas dessas lembranças.

Brincávamos na rua, inventávamos nossas próprias brincadeiras e passávamos horas conversando com amigas. Não existia celular para nossos pais perguntarem onde estávamos a cada dez minutos.

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A gente sabia que precisava voltar para casa em determinado horário.

E voltava.

Também era comum ajudar nas tarefas de casa, cuidar dos irmãos menores ou assumir pequenas responsabilidades ainda na infância, minha parte era lavar louca dia sim, dia nao , tambem fazer suco de laranja para o jantar do meu pai, revezando com minha irma.

Ninguém chamava isso de desenvolvimento da autonomia. Era simplesmente a vida acontecendo.

Quando surgia um problema entre amigas, quase sempre tentávamos resolver entre nós. Quando algo dava errado, aprendíamos a tentar novamente.

Talvez por isso tantas pessoas da nossa geração tenham desenvolvido uma enorme capacidade de encontrar soluções.

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Eu mesma percebo isso quando olho para minha trajetória.

Ao longo da vida, enfrentei mudanças, precisei recomeçar e tomar decisões importantes. Muitas vezes, simplesmente pensei: “Preciso resolver”.

E resolvi.

Essa capacidade de seguir adiante pode estar relacionada à autonomia construída ao longo da vida. Mas hoje também entendo que ser capaz de resolver tudo não significa que precisamos carregar tudo sozinhas.

Inclusive, essa mudança de olhar tem relação direta com o autoconhecimento. Já falamos aqui no blog sobre como o ato de focar em si pode transformar a própria realidade, especialmente quando começamos a observar nossos pensamentos e emoções com mais atenção.

Aprendemos a ser fortes, mas nem sempre aprendemos a falar sobre sentimentos

Existe uma parte da nossa infância que merece ser lembrada com sinceridade.

Naquela época, sentimentos raramente eram assunto de conversa.

Muitas de nós ouvimos frases como:

“Pare de chorar.”

“Isso passa.”

“Você precisa ser forte.”

“Não faça drama.”

Hoje, quando lembro disso, percebo que nossos pais provavelmente também foram criados dessa maneira.

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Crianças brincando de amarelinha na rua, uma cena comum na infância de quem cresceu nos anos 60 e 70, quando a liberdade e as brincadeiras ao ar livre faziam parte do cotidiano. Foto Estudio Katia Ribeiro

Eles ensinavam aquilo que conheciam.

O problema é que muitas crianças daquela geração aprenderam a esconder o medo, a tristeza e a frustração.

Por fora, pareciam fortes.

Por dentro, nem sempre sabiam explicar o que estavam sentindo.

E eu acredito que muitas mulheres da minha idade vão entender exatamente o que quero dizer.

Passamos anos cuidando.

Cuidamos dos filhos.

Da casa.

Do trabalho.

Da família.

Dos problemas de todo mundo.

E seguimos.

Mas chega um momento da vida em que alguma coisa muda.

Começamos a nos perguntar: e eu?

Talvez seja por isso que tantas mulheres, principalmente depois dos 40 e dos 50 anos, começam a olhar para a autoestima, para o bem-estar e para a própria identidade de outra maneira.

No artigo Autoestima não é vaidade: é saúde emocional, escrevemos justamente sobre essa relação entre a maneira como nos tratamos e o nosso equilíbrio emocional.

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Porque cuidar de si não é egoísmo.

E reconhecer que estamos cansadas também não apaga tudo aquilo que já superamos.

A maturidade está ensinando nossa geração a sentir de outra maneira

Talvez uma das coisas mais bonitas de envelhecer seja perceber que ainda podemos aprender sobre nós mesmas.

Eu nasci em 1968.

Fui criada em uma época.

Criei minha história em outra.

E hoje vivo em um mundo completamente diferente daquele da minha infância.

Isso significa que também precisei mudar.

Hoje sabemos que falar sobre ansiedade, cansaço emocional e autoestima é importante. Temos mais acesso à informação e começamos a compreender que saúde emocional também faz parte do cuidado com a vida.

Ao mesmo tempo, acredito que existe algo valioso na maneira como crescemos.

Aprendemos a tentar.

Aprendemos a esperar.

Aprendemos que nem tudo acontece imediatamente.

Aprendemos a encontrar soluções.

Talvez o grande desafio agora seja unir essas duas coisas.

A força que construímos no passado com a consciência emocional que estamos desenvolvendo no presente.

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Para muitas mulheres, esse processo começa com atitudes simples: reservar um tempo para si, voltar a fazer algo que gosta ou simplesmente aprender a reconhecer as próprias conquistas.

Aqui no blog, reuni também 7 ideias simples para aumentar a autoestima e o bem-estar da mulher. São pequenas mudanças que podem ajudar nesse reencontro conosco mesmas.

Porque depois de passar tantos anos olhando para todos ao redor, talvez tenha chegado a hora de olhar um pouco mais para dentro.

Conclusão: talvez nossa maior força esteja justamente em continuar aprendendo

Quando penso na minha infância e na geração em que nasci, sinto carinho por muitas lembranças.

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A liberdade.

As brincadeiras.

As amizades.

A maneira simples como a vida acontecia.

Mas também consigo olhar para aquela época com mais maturidade.

Nem tudo precisava ter sido suportado em silêncio.

Muitas de nós aprendemos a ser fortes porque a vida exigiu isso.

Seguimos em frente.

Criamos filhos.

Trabalhamos.

Recomeçamos.

Enfrentamos perdas, mudanças e transformações.

Agora, talvez estejamos vivendo uma nova fase.

Uma fase em que podemos continuar sendo fortes, mas sem precisar esconder tudo o que sentimos.

Eu nasci em 1968.

Carrego comigo a força daquela geração.

Mas hoje também estou aprendendo que olhar para mim, compreender minhas emoções e respeitar meus próprios limites não diminui essa força.

Talvez seja exatamente o contrário.

Porque a verdadeira maturidade não está apenas em sobreviver ao que vivemos.

Está em olhar para nossa própria história, entender quem nos tornamos e perceber que ainda temos muito para descobrir sobre nós mesmas.

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