Entre memes, manchetes e algoritmos, a ciência mostra como os conteúdos que consumimos podem influenciar o estresse, o humor, os relacionamentos e até a forma como envelhecemos.
Abrir o celular virou quase um reflexo automático. Em poucos segundos, uma pessoa pode sair de um vídeo engraçado para uma notícia sobre crise econômica, doenças, tragédias ou outros acontecimentos de forte impacto emocional. O cérebro, porém, não recebe todos esses conteúdos da mesma maneira.
Enquanto o humor costuma provocar alívio, sensação de bem-estar, aproximação social e sensação momentânea de leveza, o consumo repetido de notícias negativas pode manter o organismo em estado de alerta. A questão não é abandonar a informação, mas entender como ela afeta o corpo e como escolher melhor aquilo que entra na nossa rotina mental.
O que acontece quando acompanhamos notícias negativas em excesso?
Notícias difíceis fazem parte da realidade e precisam ser conhecidas. O problema começa quando a exposição se torna constante, repetitiva e emocionalmente pesada. É o caso de pessoas que passam longos períodos rolando manchetes ruins, vídeos de tragédias e relatos alarmantes, comportamento conhecido popularmente como “doomscrolling”.
A preocupação dos cientistas com esse hábito não é recente. Em diferentes contextos, estudos têm mostrado que a exposição frequente a informações negativas pode afetar o bem-estar emocional. Um exemplo é o artigo “COVID-19 e os impactos na saúde mental: uma amostra do Rio Grande do Sul, Brasil”, publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva. Nele, os pesquisadores observaram que a maior exposição a informações sobre a pandemia esteve associada a um risco mais elevado de sintomas de ansiedade e depressão.
Esse efeito, porém, não parece estar restrito a períodos de crise sanitária. No estudo “Como as mídias sociais influenciam na saúde mental?”, publicado na revista Enfermagem em Foco, os pesquisadores destacam que conteúdos negativos, alarmistas e notícias capazes de provocar forte resposta emocional podem desencadear sentimentos como medo, ansiedade, tristeza e sensação de impotência. Segundo os autores, quando esse tipo de conteúdo é consumido de forma frequente, pode impactar significativamente o bem-estar psicológico dos usuários.
Por que o cérebro reage tão forte a más notícias?
O cérebro humano presta atenção especial a ameaças. Essa capacidade ajudou nossos ancestrais a sobreviver, mas, no ambiente digital, pode se transformar em armadilha. Cada manchete alarmante pode funcionar como um pequeno sinal de perigo.
Quando esse estímulo se repete muitas vezes ao dia, o organismo pode acionar respostas de estresse. O cortisol, conhecido como um dos principais hormônios envolvidos nessa resposta, ajuda o corpo a reagir a situações desafiadoras. Em excesso ou de forma prolongada, porém, essa ativação pode afetar sono, humor, concentração e sensação de bem-estar.
E os memes? Rir realmente muda alguma coisa no corpo?
Memes não substituem terapia, descanso ou cuidado médico. Mas o humor pode funcionar como uma pausa emocional importante. Rir de uma situação, compartilhar uma piada ou assistir vídeos leves, engrançados pode reduzir momentaneamente a tensão e mudar o estado emocional.
A ciência já investiga esse efeito há décadas. No estudo “Neuroendocrine and Stress Hormone Changes During Mirthful Laughter”, publicado no The American Journal of the Medical Sciences, Lee S. Berk e colaboradores observaram que a experiência do riso prazeroso esteve associada à redução de cortisol e de outros hormônios relacionados ao estresse.
Então é melhor ver memes do que notícias?
Não exatamente. A ciência não sugere viver desinformado. A questão é equilíbrio. Acompanhar notícias é importante para entender o mundo, tomar decisões e exercer cidadania. O problema está no excesso, principalmente quando o consumo acontece de forma compulsiva, sem filtro e antes de dormir.
Uma rotina mental mais saudável pode incluir informação de qualidade, em horários definidos, e também conteúdos leves que ajudem o cérebro a sair do estado permanente de ameaça.
Como escolher melhor o que assistir no dia a dia?
Uma estratégia simples é observar como você se sente depois de consumir determinado conteúdo. Se uma sequência de notícias deixa você ansioso, irritado, impotente ou com medo, talvez seja hora de reduzir a exposição, escolher fontes mais confiáveis e evitar manchetes sensacionalistas.
Por outro lado, conteúdos de humor, vídeos leves e memes podem funcionar como pequenos intervalos emocionais.
O cortisol, o envelhecimento e a importância de ensinar o algoritmo a trabalhar a seu favor
Além dos efeitos sobre o humor, o cortisol também tem relação com diversos processos ligados ao envelhecimento. Em situações de estresse prolongado, níveis elevados desse hormônio podem contribuir para alterações no sono, aumento da inflamação, maior acúmulo de gordura abdominal, fadiga mental e até prejuízos à memória e à capacidade de concentração. Por isso, momentos de prazer genuíno não devem ser vistos apenas como entretenimento, mas como parte de uma rotina saudável. Rir, sentir curiosidade, inspirar-se com histórias positivas ou consumir conteúdos que despertam emoções agradáveis pode funcionar como uma espécie de “descanso biológico” para o cérebro. Na prática, isso também significa ensinar os algoritmos a entregar mais do que nos faz bem: seguir perfis inspiradores, interagir com conteúdos leves, buscar conhecimento que desperte interesse e reservar menos espaço para estímulos que geram ansiedade constante.
…Afinal, aquilo que alimentamos diariamente nas telas também ajuda a moldar nossos pensamentos. E, em certa medida, cuidar do que consumimos pode ser tão importante quanto cuidar do que colocamos no prato: ambos influenciam a forma como envelhecemos, sentimos e enxergamos a vida.
O ciclo que começa na tela e continua na vida real
Essa escolha também pode influenciar a forma como nos relacionamos com os outros. Pesquisas em psicologia social sugerem que pessoas que sorriem e riem com mais frequência costumam ser percebidas como mais acessíveis, amigáveis e confiáveis. No estudo “The Benefits of a Smile: Facial Expression and Interpersonal Perception”, os autores observaram que expressões positivas favorecem a aproximação social e a formação de vínculos. Isso cria uma espécie de ciclo virtuoso: momentos de leveza favorecem conexões mais saudáveis, e relações mais saudáveis tendem a gerar ainda mais bem-estar para nossa vida.
A conclusão da ciência
O cérebro não trata todos os conteúdos como iguais. Notícias negativas em excesso podem aumentar a sensação de ameaça e alimentar respostas de estresse. Já o riso, especialmente quando espontâneo e prazeroso, pode ajudar a reduzir a tensão, pode causar um imapcto positivo dentro das nossas relações (aliás, quem não gosta de pessoas leves?) e até influenciar marcadores biológicos como o cortisol.
No fim, a melhor escolha talvez não seja entre memes ou notícias, mas entre consumo automático e consumo consciente. Informar-se continua sendo essencial. Mas rir, descansar a mente e escolher melhor o que entra pelos olhos também pode ser uma forma legítima de cuidar da saúde.
