Quem nunca viu a avó deixar o feijão de molho na noite anterior, naquela bacia de água? Parecia só mania antiga. Mas a ciência confirma: esse hábito simples tem motivos de sobra para existir. E o melhor, faz diferença no seu prato e na sua barriga.
O que acontece quando o feijão fica de molho?
Duas coisas, basicamente. A primeira é que os grãos absorvem água e ficam pré-hidratados. Isso amolece o feijão antes mesmo de ele ir ao fogo, o que ajuda a cozinhar mais rápido e por igual.
A segunda é mais interessante. Parte dos compostos chamados antinutrientes, que ficam dentro do grão, se dissolve na água. Por isso aquela água do molho fica meio escura e a gente joga fora. Junto com ela, vão embora alguns vilões da digestão.
O que são esses tais antinutrientes?
São substâncias naturais do feijão que, no nosso corpo, atrapalham um pouco. Eles não são veneno, mas dificultam o aproveitamento dos nutrientes e podem causar desconforto. Os principais são:
- Fitatos (ácido fítico): se agarram a minerais como ferro, cálcio e zinco, dificultando a absorção
- Taninos: atrapalham a digestão de proteínas
- Oligossacarídeos: carboidratos difíceis de digerir, os grandes responsáveis pelos gases
Como boa parte deles se dissolve na água, o remolho ajuda a reduzir essas substâncias. O resultado é um feijão mais leve e nutritivo.
Adeus, gases e barriga estufada
Esse é o benefício que mais gente sente na prática. Aqueles oligossacarídeos que o feijão tem são campeões em causar gases e aquela sensação de barriga inchada depois do almoço.
Quando você deixa o feijão de molho e descarta a água, leva embora boa parte desses compostos. Por isso, quem sofre com desconforto após comer feijão costuma melhorar bastante só adotando esse hábito. Simples assim.
Seu corpo aproveita mais os nutrientes
Tem um ganho que passa despercebido. O feijão é rico em ferro, cálcio e zinco, minerais importantíssimos. Só que os fitatos meio que “prendem” esses minerais, e o corpo não consegue usar tudo.
Ao reduzir os fitatos no molho, esses minerais ficam mais disponíveis para o organismo absorver. Ou seja, o mesmo prato de feijão passa a render mais nutrição. Isso é especialmente bom para quem precisa de ferro, ajudando inclusive na prevenção da anemia.
Como fazer o remolho do jeito certo
Não tem segredo, mas tem um caminho ideal recomendado por pesquisadores da Embrapa. Veja o passo a passo:
- Lave bem o feijão e tire grãos quebrados ou sujeira
- Cubra os grãos com bastante água, numa tigela
- Deixe de molho de 8 a 12 horas (a famosa noite inteira)
- Descarte a água do molho e enxágue os grãos
- Cozinhe com água limpa, na proporção de mais ou menos 1 xícara de feijão para 3 de água
Uma dica que turbina o processo: pingar um pouco de suco de limão ou vinagre na água do molho. O ácido ajuda a soltar ainda mais os antinutrientes de dentro do grão.
Esqueceu de deixar de molho? Tem solução
Acontece com todo mundo. Você decidiu fazer feijão na hora e não tem 12 horas para esperar. Calma, dá pra resolver com o método rápido.
Coloque o feijão na panela, cubra com água e ferva por uns 2 minutos. Depois, desligue o fogo e deixe descansar por 1 hora com a panela tampada. Escorra essa água e cozinhe normalmente. Não é tão completo quanto o molho longo, mas já ajuda bastante.
Afinal, o molho é obrigatório?
Aqui vai a parte que poucos contam. Pesquisadores da Embrapa explicam que o feijão vendido hoje não é o mesmo de 30 ou 40 anos atrás. As variedades modernas cozinham bem mais rápido.
Antigamente, o feijão precisava de uns 50 minutos na pressão. Hoje, em 20 a 25 minutos, ele já está pronto, mesmo sem molho. Então a verdade é esta: o remolho não é obrigatório, mas continua valendo muito a pena pelos ganhos na digestão, na redução de gases e no melhor aproveitamento dos nutrientes. Se você tem tempo, vale o hábito. Se não tem, o feijão ainda fica bom. O importante mesmo é não deixar essa leguminosa tão brasileira sair do seu prato.
