
Quando escolhe o que vai comer, você pensa primeiro no alimento ou imediatamente em carboidrato, proteína, gordura e calorias? A nutrição é fundamental para a saúde justamente porque aquilo que comemos participa de processos que vão muito além do peso corporal. Segundo a Organização Mundial da Saúde, uma alimentação saudável ajuda a prevenir diferentes formas de má nutrição e reduz o risco de doenças crônicas, como diabetes, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer. Em documento conjunto, OMS e FAO destacam ainda quatro princípios fundamentais de uma alimentação saudável: adequação, equilíbrio, moderação e diversidade.
Nutrição: talvez não seja somente aquilo que você imagina
No senso comum, falar em nutrição muitas vezes parece significar “fazer dieta”, e dieta, por sua vez, acaba sendo entendida apenas como uma maneira de emagrecer. Essa visão é bastante limitada. A nutrição envolve a relação entre alimentos, nutrientes, necessidades do organismo, saúde, crescimento, desenvolvimento e prevenção tanto de deficiências quanto de excessos.
A própria OMS ressalta que não existe uma única alimentação saudável adequada para todo mundo: sua composição varia conforme idade, estilo de vida, atividade física, cultura, alimentos disponíveis e outras características individuais. Portanto, nutrição não deveria ser resumida a “comer menos”. É também compreender o que, quanto, como e dentro de qual contexto estamos comendo.
E o que é nutricionismo? Aqui está a grande diferença
É nesse ponto que chegamos ao nutricionismo. O pesquisador Gyorgy Scrinis, da Universidade de Melbourne, desenvolveu o conceito e o apresentou academicamente no artigo On the Ideology of Nutritionism, na revista Gastronomica. Scrinis descreve o nutricionismo como uma maneira reducionista de compreender os alimentos principalmente através de seus nutrientes, fazendo com que proteína, gordura, carboidrato, vitaminas ou calorias se tornem protagonistas enquanto o alimento como um todo perde importância.
Imagine, por exemplo, olhar para uma refeição e pensar apenas: “quantas gramas de proteína existem aqui?”. Essa informação pode ser útil, mas não conta toda a história. Processamento, combinação dos alimentos, padrão alimentar, contexto cultural e qualidade geral da dieta também importam. Scrinis aprofundou essa crítica no livro Nutritionism: The Science and Politics of Dietary Advice, mostrando como a classificação simplista entre nutrientes “bons” e “ruins” também influenciou recomendações alimentares e o marketing da indústria.
A diferença pode ser resumida assim:
- Nutrição: campo científico que estuda alimentos, nutrientes e suas relações com organismo, saúde e alimentação.
- Nutricionismo: conceito crítico usado para descrever a redução excessiva dos alimentos aos nutrientes que possuem.
Portanto, nutrição é ciência; nutricionismo é uma crítica a determinada maneira reducionista de interpretar a alimentação.
E, na vida real, quem nunca sentiu vontade de comer um docinho, uma coxinha ou simplesmente algo porque é gostoso, e não porque tem determinada quantidade de proteína, gordura ou carboidrato? Como vimos anteriormente, a alimentação também é cultura: aquilo que comemos está ligado aos nossos costumes, à família, às celebrações, às memórias e ao convívio social. Além disso, comer envolve prazer, e ignorar essa dimensão pode transformar a alimentação em uma simples conta de nutrientes difícil de sustentar no longo prazo.
Por experiência própria, só consegui manter uma dieta com objetivo de reduzir gordura e ganhar massa muscular quando parei de tentar comer “perfeitamente”. Uma das coisas que me ajudou foi comprar um pote de doce de leite e dar colheradinhas controladas, em uma quantidade planejada. Antes, eu seguia a dieta à risca por três dias, depois não aguentava mais e acabava exagerando muito mais. Foi quando entendi, na prática, que uma alimentação pode ter espaço para o prazer sem deixar de estar alinhada aos meus objetivos.
E para quem quer emagrecer, o que realmente importa?
Entender essa diferença também ajuda quando o objetivo é perder peso. Emagrecer não deveria significar simplesmente declarar guerra ao carboidrato, à gordura ou a algum alimento isolado. A alimentação precisa continuar fornecendo nutrientes e ser sustentável no cotidiano. A OMS reforça princípios como equilíbrio entre consumo e gasto energético, diversidade e preferência por alimentos minimamente processados ou não processados.
Algumas orientações gerais são:
- Evite dietas extremamente restritivas que você dificilmente conseguirá manter.
- Priorize alimentos in natura ou minimamente processados.
- Inclua boas fontes de proteínas, fibras, frutas, verduras e legumes.
- Observe porções e densidade energética sem transformar calorias em obsessão.
- Reduza alimentos ricos em açúcares livres, sódio e gorduras não saudáveis.
- Não elimine grupos alimentares sem necessidade ou orientação profissional.
- Pense em mudanças que você conseguiria manter por meses e anos, não apenas por algumas semanas.
- Procure uma nutricionista quando precisar de um planejamento individualizado.
Talvez seja justamente essa a reflexão que o conceito de nutricionismo proporciona: conhecer nutrientes é importante, mas nós não comemos nutrientes isolados — comemos alimentos, refeições e padrões alimentares inteiros. E quando o objetivo é saúde ou emagrecimento, enxergar o prato como um todo pode ser muito mais útil do que viver procurando um único ingrediente “vilão” ou “milagroso”.
E por falar em nutrição, entenda a importância que um nutricionista pode fazer na nossa vida
Cada pessoa tem uma rotina, preferências, necessidades e objetivos diferentes. Por isso, mais do que simplesmente seguir a “dieta da moda” ou copiar a alimentação de alguém, o acompanhamento de um nutricionista permite construir uma estratégia individualizada, adequada à sua realidade e aos seus objetivos.
O nutricionista também pode ajudar a encontrar esse equilíbrio entre saúde, resultados e prazer em comer, mostrando que uma boa alimentação não precisa ser sinônimo de restrição excessiva. Afinal, o melhor plano alimentar não é apenas aquele que parece perfeito no papel, mas aquele que atende às suas necessidades e consegue fazer parte da sua vida no longo prazo.
