
Você já percebeu como uma crítica pode permanecer na cabeça por dias, enquanto vários elogios são rapidamente esquecidos? A autoestima está relacionada à essa avaliação que fazemos do nosso próprio valor. Pesquisadores como Ulrich Orth e Richard Robins mostram que ela apresenta certa estabilidade, mas não é imutável: pode se modificar ao longo da vida.
Antes de continuar, vamos esclarecer alguns mitos sobre autoestima que prevalecem no senso comum, ou que possuem uma visão muito reducionista e precisamos desmitificar ou contextualizar melhor:
- “Autoestima é se achar bonita.” Aparência é apenas uma parte da nossa percepção sobre nós mesmas.
- “É se achar melhor que os outros.” Reconhecer seu valor não exige diminuir ninguém.
- “Quem tem autoestima nunca fica insegura.” Inseguranças continuam existindo.
- “Preciso amar tudo em mim.” Podemos reconhecer defeitos sem acreditar que valemos menos, ou que esses defeitos são tão importantes assim pra nossa percepção sobre nós mesmos.
- “Nasci assim e não posso mudar.” Autoestima pode ser trabalhada.
O que muda quando nossa autoestima melhora?
Não estamos falando apenas de olhar no espelho e gostar mais da própria imagem. Estudos revisados por Orth e Robins relacionam autoestima mais elevada posteriormente a melhores resultados em áreas como relacionamentos, trabalho e saúde. Os pesquisadores também apontam a baixa autoestima como possível fator de vulnerabilidade para sintomas depressivos.
Entre os possíveis benefícios de estar com uma autoestima saudável estão:
- Maior bem-estar psicológico.
- Relações interpessoais mais saudáveis.
- Melhor funcionamento profissional.
- Maior capacidade de reconhecer qualidades e limitações.
- Uma percepção de valor menos dependente da aprovação externa.
E é daqui que podemos retirar três diretrizes para trabalharmos diariamente.
1. Separe sentimento de identidade
“Eu me sinto feia hoje” não significa “eu sou feia”. “Eu fracassei nisso” não significa “sou um fracasso”.
Aprenda a perceber quando uma emoção ou acontecimento temporário está tentando se transformar em uma definição permanente sobre você. Quando surgir aquele pensamento depreciativo, pergunte: isso descreve o que aconteceu ou está tentando definir quem eu sou?
2. Produza evidências de competência
Em vez de esperar se sentir confiante para começar, experimente fazer o contrário.
Aprenda algo, pratique exercício, termine uma tarefa que voce sempre adia, desenvolva uma habilidade ou enfrente uma pequena situação que costuma evitar. Cada experiência oferece evidências reais de capacidade.
Você não precisa apenas repetir “eu consigo”. Aos poucos, pode olhar para trás e dizer: “eu fiz.”
3. Aja a partir do autorrespeito
Pergunte: se eu realmente acreditasse que mereço respeito, o que faria diferente hoje?
Talvez colocasse um limite, cuidasse melhor da saúde, descansasse sem culpa ou parasse de aceitar determinado tratamento. Autorrespeito não significa egoísmo. Significa começar a tomar decisões considerando que seu bem-estar também merece espaço.
O poder de construir uma autoimagem positiva
Autoimagem não significa simplesmente se considerar bonita. Quando falamos especificamente de imagem corporal, estamos falando dos pensamentos, sentimentos e atitudes relacionados ao próprio corpo.
Uma grande meta-análise de Jake Linardon e colaboradores, reunindo 240 trabalhos, encontrou associações entre maior apreciação corporal e diferentes indicadores positivos de bem-estar. Outra meta-análise, publicada na Body Image, analisou 48 estudos randomizados envolvendo 7.182 mulheres e encontrou evidências de que intervenções psicológicas podem melhorar aspectos da imagem corporal, ou seja, aprender a se relacionar melhor com o próprio corpo é algo que pode ser desenvolvido e modificado.
Para trabalhar essa relação:
- Observe como você conversa consigo mesma diante do espelho.
- Questione comparações alimentadas por redes sociais, filtros e padrões irreais.
- Lembre que você também é suas habilidades, valores, inteligência e história.
- Use maquiagem, skincare, cabelo e roupas como expressão e autocuidado, não como obrigação para se sentir digna.
- Valorize também aquilo que seu corpo permite fazer.
- Não espere uma versão “perfeita” de você para começar a viver.
- Procure uma psicóloga se questões de autoestima ou aparência estiverem provocando sofrimento significativo.
No final, as três diretrizes se conectam: não transforme aquilo que sente em tudo aquilo que você é, construa evidências daquilo que consegue fazer e tome decisões compatíveis com o respeito que deseja desenvolver por si mesma.
Autoestima não costuma mudar de um dia para o outro. Ela vai sendo construída também nas pequenas maneiras como você aprende a pensar sobre si, agir por si e olhar para si mesma todos os dias.
