“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” — Clarice Lispector

Julio Cezar Lisboa
Julio Cezar Lisboa
Jornalista ,redator e escritor. Tenho a escrita como profissão e como forma de conexão com o público. No blog, escrevo sobre crochê, bem-estar, receitas, jardinagem e decoração do lar, com conteúdos leves, informativos e pensados para inspirar o dia a dia.
Clarice Lispector (1920–1977) foi uma das maiores escritoras da literatura brasileira, conhecida por suas obras introspectivas e por transformar emoções e reflexões em literatura atemporal. — Créditos: Não encontrado

Vivemos na era da “otimização humana”. Somos bombardeados diariamente por manuais, cursos e conselhos que nos ensinam a ser mais produtivos, menos ansiosos, mais comunicativos e, essencialmente, “perfeitos”. A busca por eliminar cada traço de nossa personalidade que rotulamos como um “defeito” tornou-se uma missão quase obsessiva.

Mas, ao tentarmos esculpir a nossa melhor versão, será que não estamos correndo o risco de demolir a estrutura que nos mantém de pé?

@canalgnt

Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso, nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o nosso edifício inteiro.’ Clarice Lispector já nos alertava. Qual a diferença entre defeito e característica? #SábiaIgnorânciaNoGNT

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O perigo da autocorreção excessiva

A ideia de que somos um “projeto inacabado” que precisa de conserto constante é sedutora, mas perigosa. Muitas vezes, o que chamamos de defeito é, na verdade, um mecanismo de sobrevivência que desenvolvemos ao longo da vida.

  • A “ansiedade” que nos impulsiona a ser pessoas precavidas e organizadas.
  • A “timidez” que nos permitiu desenvolver uma capacidade de observação e empatia que poucos possuem.
  • A “teimosia” que, em muitos casos, é o combustível da nossa resiliência e capacidade de não desistir diante dos obstáculos.

Quando tentamos “cortar” essas características, não estamos apenas removendo um erro; estamos retirando uma peça fundamental da nossa identidade. O perigo está em realizar essa “cirurgia plástica emocional” sem entender a função que cada parte cumpre na nossa história.

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Identificando os pilares do seu edifício

A citação de Clarice nos convida a uma investigação estrutural. Antes de se forçar a mudar algo que você detesta em si mesmo, faça a si mesma (e ao seu edifício) algumas perguntas:

  1. Por que chamo isso de defeito? É uma característica intrínseca ou um julgamento externo baseado no que a sociedade espera de mim?
  2. O que eu ganho mantendo isso? Qual qualidade ou proteção essa “falha” me proporciona?
  3. Se eu a removesse hoje, quem eu seria?

Muitas vezes, descobrimos que o “defeito” que tanto queremos esconder é o pilar que sustenta a nossa criatividade, a nossa autenticidade ou o nosso modo único de ver o mundo.

A beleza da imperfeição funcional

Não se trata de manter hábitos que te fazem mal ou que sabotam a sua felicidade. Trata-se de distinguir entre crescimento real e anulação de si mesmo.

Crescer é aprender a conviver com as próprias sombras e integrá-las, em vez de tentar amputá-las. A maturidade chega quando paramos de tratar a nossa personalidade como um software que precisa de debug constante e começamos a tratá-la como uma arquitetura complexa, onde cada falha aparente tem o seu lugar no suporte da estrutura.

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Convite à reflexão

Talvez o seu próximo passo não seja se tornar alguém novo, mas sim entender profundamente quem você já é. Antes de passar a tesoura em algo que você julga ser um defeito, pergunte-se: ele está atrapalhando o meu caminho ou ele é a fundação da minha força?

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