
Você já viu alguém enterrando um dente de alho no vaso das plantas e ficou se perguntando para que aquilo serviria? A dica ficou popular entre quem procura alternativas naturais para cuidar do jardim, principalmente pela fama do alho contra fungos e outros microrganismos. E existe ciência interessante por trás dessa associação, mas não exatamente da maneira como algumas receitas caseiras prometem.
O alho (Allium sativum) possui compostos biologicamente ativos, sendo a alicina um dos mais estudados. O detalhe importante é que ela é formada principalmente quando o tecido do alho é danificado, como acontece ao cortar ou esmagar o dente.
O que o alho pode fazer pelas plantas?
O principal motivo para o alho despertar interesse na agricultura está justamente em sua atividade antimicrobiana. Extratos preparados a partir dele vêm sendo estudados como possíveis alternativas naturais para auxiliar no controle de determinados microrganismos que provocam doenças nas plantas.
Os pesquisadores Alan J. Slusarenko, Anant Patel e Dieter Portz, cientistas da área de biologia vegetal da RWTH Aachen University, na Alemanha, investigaram essa propriedade e observaram que extratos de alho contendo alicina apresentaram atividade contra diferentes bactérias, fungos e oomicetos causadores de doenças em plantas. O estudo foi publicado na revista científica Physiological and Molecular Plant Pathology.
É daí que vem boa parte do interesse em utilizar o alho no jardim.
Mas colocar um dente inteiro na terra funciona?
Aqui precisamos separar uma ideia plausível de uma eficácia comprovada.
Os estudos científicos normalmente utilizam extratos de alho ou alicina em concentrações controladas. Isso é bastante diferente de simplesmente pegar um dente na cozinha e enterrá-lo no vaso.
Além disso, a alicina aparece quando as células do alho são rompidas. O próprio trabalho de Slusarenko e seus colaboradores explica que a substância é produzida após o tecido do alho sofrer danos, permitindo que compostos que antes estavam separados entrem em contato.
Alho também não deve ser tratado como “adubo milagroso”
Um exagero comum é afirmar que enterrar alho automaticamente “nutre a planta”.
Quando qualquer matéria orgânica se decompõe, seus componentes passam a participar dos processos biológicos do solo. Isso não transforma, porém, um dente de alho em substituto de substrato adequado e adubação equilibrada.
Inclusive, concentração importa. Um estudo com diferentes variedades de alho encontrou atividade antifúngica interessante dos extratos, mas os pesquisadores também observaram que concentrações mais elevadas poderiam causar danos às membranas e prejudicar o crescimento de mudas de pepino, por exemplo.
Então vale a pena colocar alho nos vasos?
Como experiência de jardinagem, você pode até testar, principalmente se também tiver curiosidade de vê-lo brotar. Mas de acordo com as pesquisas citadas, eu não enterraria dentes de alho esperando substituir fungicidas, inseticidas ou fertilizantes.
Afinal, aquele pequeno dente que temos na cozinha realmente guarda uma química surpreendente só precisamos separar aquilo que os estudos já demonstraram daquilo que ainda é apenas uma dica popular de jardinagem.
